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A presença em organizações internacionais é essencial
para que Portugal possa participar na realização da big
science, defendeu Manuel Heitor, director do Centro de
Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de
Desenvolvimento em entrevista ao “Fórum Empresarial”.
Crítico das medidas apresentadas pelo Governo para
impedir a “fuga de cérebros”, pois o mais importante
é criar redes científicas, defende o aumento do esforço
público em I&D.
Fórum
Empresarial- Portugal apresenta valores de Investigação
e Desenvolvimento (I&D) abaixo da média europeia. Não
há a consciência da sua importância para o
desenvolvimento?
Manuel
Heitor - Neste momento, temos em Portugal 3,5 investigadores por
mil habitantes, enquanto a média europeia são 5,7 e nos
EUA são oito por mil habitantes. Se virmos em termos do
esforço financeiro em I&D, segundo os últimos dados
conhecidos para 2002, ele equivale a 0,79 por cento do
PIB, enquanto a média europeia é 1,9 por cento e nos EUA
é de 2,5 por cento.
Portugal, sobretudo na segunda metade dos anos 90,
envolveu-se num esforço de avaliação internacional da
ciência com pares internacionais. E quer a avaliação de
1996, quer a de 1999, quer algumas já feitas em 2002,
identificaram claramente pólos de excelência. Há quem
diga mesmo que temos uma sociedade dual, porque temos
poucos investigadores mas temos alguns muito bons.
Apesar disso, o impacto que tem depende muito do que é a
cultura científica e tecnológica; daquilo que é a
compreensão pública da ciência. Em Portugal, há um défice
histórico de compreensão pública da ciência. Casos
conhecidos como as inceneradoras que vão imediatamente
para a esfera do senso comum e do domínio público sem
serem devidamente tratadas no âmbito científico. Não há
a percepção do público em termos médios do que deve ou
não deve ser tratado pela ciência e qual o papel da ciência.
F.E:-
A chamada “fuga de cérebros” é um problema nacional
e para evitar esta situação foram anunciadas medidas
para fixar os investigadores nacionais. Considera que esta
medida surtirá efeitos?
M.H.
-
Quais medidas? Essa medida é ridícula, no mínimo,
porque estamos a falar de jovens investigadores. A medida
que foi feita é para pessoas no fim de carreira, é para
atrair para Portugal reformados e não tem qualquer
interesse para o que se está a discutir. Essa medida é
para outra franja de investigadores; não tem nada a ver
com emprego científico, com o rejuvenescimento da
comunidade científica, com a atracção de jovens
doutorados para Portugal. É uma medida que tem como
objectivo atrair uma comunidade da terceira idade para
Portugal porque aquelas condições são típicas de uma
pessoa com uma carreira feita e não acredito que pessoas
com essa carreira andem à procura de uma mera bolsa de
cinco mil euros.
F.E.-
O que devia ser feito?
M.H.
-
O que Portugal precisa é de continuar a incentivar os
mais jovens para as carreiras científicas e, de certa
forma, rejuvesnecer nas instituições de ciência e
tecnologia nas universidades, o corpo docente e de
investigadores. E essas medidas não existem. Há uns anos
foram lançados os laboratórios associados que tinham
como objectivo renovar e sobretudo manter o corpo de
investigadores nos laboratórios e durante vários anos
essas medidas estiveram parcialmente bloqueadas.
O grande desafio passa por Portugal manter uma comunidade
científica jovem, criar massa crítica e isto não se faz
num ano, vai-se fazendo.
F.E.-
Mas as experiências no estrangeiro também são benéficas
para o investigador...
M.H.
-
O partir para o estrangeiro não tem mal nenhum e até
aconselho vivamente. Se há actividade que, por excelência,
esteja globalizada é a ciência e I&D; são
actividades que têm que ser sempre feitas em colaboração
internacional.
O desenvolvimento da política de ciência e tecnologia em
Portugal tem oscilado entre uma noção de que deve fazer
parte do sistema internacional e outra versão que defende
que Portugal deve constituir a sua própria ciência e
isolar-se. Este oscilar entre uma perspectiva e outra tem
sido terrível para Portugal, porque não tem deixado
progredir e há quem diga até que o sistema de ciência e
tecnologia portuguesa é como um harmónio, pelo menos
nestes últimos 30 anos.
Só é possível pensar num sistema de ciência e
tecnologia de dimensão internacional. Um país pequeno
como Portugal não se pode dar ao luxo de fechar
fronteiras. Há que ter as pessoas a trabalhar em rede e
numa perspectiva em que a sociedade portuguesa, quer em
termos sociais, quer económicos, venha a lucrar. Isto
requer a participação de Portugal em grandes organizações
intergovernamentais de ciência, porque hoje a big science
faz-se em grandes organizações. É através delas que se
desenvolvem os grandes projectos científicos. Depois
podem fazer-se pequenos projectos, mas a participação
internacional para Portugal é crítica ao nível das
grandes organizações; capacitar que o desafio está não
em formar uma comunidade científica nacional, isso não
faz sentido, mas sim uma comunidade científica fortemente
ineternacionalizada, com fortes redes em todo o mundo,
naturalmente com uma ligação particularmente forte à
Europa, mas integrada também através do Atlântico.
Trabalho
voluntário
F.E.
- Aos jovens investigadores nacionais são atribuídas
bolsas, muitas vezes insuficientes...
M.H.-
A questão crítica que está por detrás disto é que,
hoje, apesar da época em que vivemos, continuamos a
tratar a ciência ainda com grande voluntarismo.
Infelizmente, ainda não estamos numa fase onde este
assunto é tratado de uma forma profissional e sistemática
onde as pessoas podem fazer escolhas perfeitamente livres
se se querem dedicar à ciência ou não. Só aqueles que
têm um grande voluntarismo é que conseguem vir para aqui
porque, de facto, os incentivos neste momento estão longe
de estarem a fluir de uma forma e penso que hoje na
comunidade científica portuguesa vive-
-se um ambiente de grande intuição e de grande
instabilidade
F.E.-
As bolsas de investigação são insuficientes e geram uma
forma de trabalho quase precário?
M.H.-
É um problema que não é novo e que a Europa tratou, há
muitos anos, nalgumas áreas específicas em que sabia que
requeriam grande estabilidade. Áreas onde o
desenvolvimento demora pelo menos cinco ou dez anos não
podem ser tratadas a curto prazo. Sabemos que é um grande
problema conjugar esta característica da ciência com os
ciclos políticos e com os orçamentos anuais. Em Portugal
foram feitos contratos a longo prazo, dez anos, com os
laboratórios associados nalgumas áreas específicas
consideradas de interesse público, para lhes dar maior
estabilidade. Participamos num desses laboratórios e
fizemos um contrato com o Estado onde durante cinco anos
sabíamos que íamos ter um corpo de investigadores. Esse
contrato foi assinado em 2001, ainda não tivemos nenhum
investigador até hoje.
Este clima de grande instabilidade é adverso à ciência
que se faz no mundo. Se se quer ter pessoas a pensarem e a
reflectirem sobre programas, tem que se dar estabilidade
para pensarem. Se todos os dias sai um novo programa, com
vários milhões de euros e depois sai outro, este
amontoado de notícias cria sobretudo uma instabilidade na
comunidade. E não há nada pior para mim no domínio
científico do que a instabilidade porque é contrário á
própria essência de fazer ciência.
Papel das empresas
F.E.-
A incerteza quanto à revisão do novo Quadro Comunitário
de Apoio pode vir a agudizar os meios disponíveis para a
ciência em Portugal?
M.H.-
Essa é uma questão muito crítica e delicada que,
infelizmente, parece que os nossos governantes não a têm
tratado. Hoje ainda não se sabe o que se vai fazer à
zona de Lisboa e do Vale do Tejo, que é onde está a
maior concentração da comunidade científica em
Portugal.
Naturalmente, esperamos o reforço das verbas comunitárias
porque também é conhecido que, hoje, Portugal começa a
requisitar outro tipo de fundos; enquanto na década de 90
muitos dos fundos foram sobretudo para instalações, que
não haviam ou eram precárias, hoje o crescimento depende
muito de pessoas e alguns equipamentos.
F.E.-
E qual o papel que os privados podem desempenhar? É
necessário estreitar as relações entre as empresas e a
I&D, com um aumento do esforço financeiro, como
sucede noutros países?
M.H.-
É um assunto muito recorrente a ligação às empresas,
mas não podemos exigir mais às empresas do que lhe
podemos pedir. Diria que o mercado é inteligente; se as
empresas não investem mais é porque não sentem essa
necessidade.
O que observamos no mundo ocidental, norte da Europa e EUA
é que o esforço considerável em ciência não vem das
empresas, continua a vir do domínio público. Não nos
iludamos – as universidade não são financiadas pelas
empresas. Temos dois grandes sistemas e os EUA mostram que
o crescimento do sistema privado foi construído à base
de um sistema público muito forte que se solidificou
durante várias décadas. Mas não pensemos que há uma
grande transitabilidade de fundos ou de bens entre eles;
os sistemas são cada vez mais diversos e isso é muito
importante.
O grande erro é dizer que não é preciso aumentar mais o
público, o que é preciso é aumentar o privado. São
coisas completamente diferentes. o que se financia pelo
sector público não tem nada a ver com o sector privado.
O tipo de investigação e a forma de fazer investigação
são cada vez mais diferentes
e um não substitui o outro; temos que actuar nos
dois e sabemos que de um modo geral o privado vem sempre
atrás do público.
A
questão das empresas é crítica mas não pode ser usada
como desculpa para reduzir o investimento público porque
são assuntos radicalmente diferentes e têm que ser
tratados de forma diferente. O que os empresários
precisam é de uma estrutura de incentivos que lhes
permita evoluir da actual estrutura de produção para uma
estrutura de inovação.
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